POPINIGIS Fabiane

Expositor - Brasil

Email: fpopinigis@gmail.com

Doutora em História Social pela Universidade Federal de Campinas (UNICAMP). Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. É editora da Revista Mundos do Trabalho do GT Mundos do Trabalho- Anpuh. É tutora do Programa de Educação Tutorial-História da UFRRJ. Desenvolve pesquisas sobre escravidão e liberdade, trabalho escravo e trabalho livre, lutas por direitos. Sua tese recebeu o prêmio Coleção Várias Histórias e foi publicada sob o título de autora do livro Proletários de Casaca – empregados no comércio carioca (1850-1911). O livro aborda a luta dos trabalhadores no comércio pela regulamentação do horário de abertura das casas comerciais, suas condições de vida e trabalho, suas relações sociais. É autora de vários artigos e capítulos de livros sobre o trabalho de homens e mulheres africanas na distribuição de gêneros no centro urbano de Desterro, uma capital portuária no sul do Brasil, sua importância para a economia do município e as transformações no mercado de trabalho no século XIX.

Trabalho livre e não-livre na produção recente da história social do trabalho brasileira: perspectivas e desafíos

A história social do trabalho produzida no Brasil tem passado por importantes transformações nos últimos anos. Uma delas diz respeito a uma ampliação da cronologia, voltando-se para o período anterior a 1888. Esse limite se dava porque a existência da classe operária só era considerada a partir da expansão industrial ocorrida nos anos 1880, e também porque se tinha como inconcebível a existência da classe operária juntamente com a escravidão, portanto, antes da Abolição.

Silvia Hunold Lara, em artigo de 1998, chamou a atenção, justamente, para como os trabalhadores escravos continuavam excluídos das análises de história social do trabalho no Brasil. Desde então, vários esforços têm sido feitos no sentido de derrubar o “muro de Berlim” historiográfico, segundo expressão de Sidney Chalhoub e Fernando Teixeira da Silva, que ainda emperra o diálogo necessário entre os historiadores da escravidão e os estudiosos das práticas políticas e culturais dos trabalhadores urbanos pobres e do movimento operário.

Identificamos, então, alguns dos caminhos trilhados pelas pesquisas mais recentes. Um primeiro deles é que estudos têm chamado atenção de que não é possível entender a formação da classe trabalhadora brasileira apenas a partir dos referenciais do movimento operário organizado a partir das grandes greves do início do século XX, expondo a necessidade de promover investigações a partir de questionamentos que sejam capazes de contemplar a diversidade de experiências e movimentos de trabalhadores no século XIX e XX.

Nesse sentido, o século XIX aparece não como um momento de transição para o trabalho livre e assalariado, mas como de experimentação de uma grande diversidade de formas e arranjos de trabalho, conectadas pelo espaço atlântico. Dentro dessa perspectiva, muitos pesquisadores tem se dedicado a explorar a multiplicidade de relações de trabalho no Brasil do século XIX, mostrando que o trabalho livre no período não era tão livre assim, já que existiam diversas formas de coerção presentes inclusive nos contratos de trabalho, fosse dos engajados, dos africanos-livres, das alforrias condicionais, dos campos de trabalho ou dos aprendizes). Para isso, tem sido analisadas questões como os sentidos da liberdade, a relação entre trabalhadores livres e escravos nos espaços de trabalho e moradia, a centralidade de dimensões raciais e de gênero na organização das hierarquias do mercado de trabalho e nos movimentos sociais.

Uma outra abordagem tem sido investigar as greves organizadas e protagonizadas por trabalhadores escravos, contrariando a ideia de que esse era um instrumento de luta apenas dos trabalhadores ditos livres. Ainda assim, os pesquisadores têm procurado ir além da greve como local privilegiado de atuação dos trabalhadores e trabalhadoras, para possibilitar compreender as ações dos sujeitos, individuais ou coletivos, através da sua própria lógica em períodos e condições diversas.

Finalmente, mas não menos importante, as aproximações entre história e direito abriram uma profícua trilha para as pesquisas de história do trabalho sobre a lei como campo de disputas nas lutas por direitos. Dentro deste quadro, algumas pesquisas têm indicado a importância do poder municipal como esfera de regulação do trabalho e também como esfera acionada por homens e mulheres trabalhadores na luta por melhores condições de trabalho e vida, ou ainda, para estabelecer parâmetros legais para noções do justo e de direitos.

O objetivo da presente comunicação é, portanto, analisar como a questão das transformação ao longo do tempo das diferentes formas de exploração de homens e mulheres (trabalho livre e não-livre) e de suas formas de experiencias de vida e trabalho, organizacao e lutas aparece na produção recente da história social do trabalho brasileira, mais especificamente a partir da criação do GT Mundos do Trabalho em âmbito nacional, em 2001 e das edições da Revista Mundos do Trabalho a partir de 2009. Assim, partiremos de um panorama geral para uma análise da produção bibliográfica, dos títulos dos simpósios, mesas redondas e conferências em seus encontros nacionais do GT para realizar um balanço inicial dessa produção, identificar os avanços realizados até aqui e os novos e (velhos) desafios a enfrentar.